Sentia-me comovido todas as vezes que eu via Camila chorar. E era todas as vezes que eu deixava e buscava Gabriel na sua salinha. Seu choro de tão intenso, causava soluços.
- Observei que todas as vezes que venho trazer e buscar meu priminho Gabriel (2 anos) aqui na escolinha, aquela garotinha está sempre aos prantos. Por que ela está sempre chorando? Perguntei a professora.
- Ah! Aquela é a Camila. Ela é uma criança muito carente... A mãe está grávida e isso está deixando ela insegura e com ciúmes. E ela só para de chorar quando a pego no colo. Disse a professora.
Saí dali um pouco estarrecido depois de saber os motivos do triste choro de Camila. Entendi que suas lágrimas não eram de uma criança com dificuldades de adaptação ao novo ambiente, à escolinha; e que seus soluços não eram mera frequência de um choro ininterrupto. Camila chorava por carência, soluçava por ciúmes e insegurança. E mesmo em meio a tantos coleguinhas, só o colo era capaz de torná-la segura, calma, afetivamente apreciada com atenção e carinho.
Camila tem apenas 2 anos de idade. Entretanto, há muitas “Camila’s” adultas que choram e soluçam pelos mesmos motivos: carência, insegurança, dependência... Homens e mulheres que se sentem completamente sozinhas numa multidão. Não conseguem “viver” sem fazer parte do mundo de alguém, nem “sobreviver” sem que alguém faça parte do seu mundo. Pessoas que querem ser o centro da atenção do outro, e, ao mesmo tempo, faz do outro o centro de sua atenção, buscas, projeções etc. E dessa forma a pessoa vai se anulando, perde sua individualidade, seu respeito, sua identidade e autoestima, pois confia sua felicidade a “estranhos”, ao invés de condicioná-la a si mesma.
Todos querem ter alguém, mas ninguém quer ser de ninguém! Querem ter um companheiro (a), um namorado (a), mas não querem ser o mesmo para o outro. E assim, o “ter” e o “ser” vão tomando conceitos absurdos nas buscas afetivas. Hoje todos querem ter, mas acabam desconsiderando o ser na vida do outro... E, é claro, o "ser" nunca é uma busca, já que o "ter" supre a dependência egoísta de quem não sabe viver sozinho, senão pela carência e dependência do mundo do outro.
Tudo isso é uma conseqüência dos avanços do século XXI? Ou será uma “mutação” nas relações humanas em conseqüência da diversidade de gerações? “Baby Boomer”, “X”, “Y”, “Z”: gerações que, com tantas características peculiares, acabam se igualando pelas crises deflagradas no século que compartilham.
De fato o avanço tecnológico vem promovendo grandes mudanças no seio da sociedade. Conflitos interno e externo que respondem às buscas já apresentadas pela “Pirâmide de Maslow”, crises de identidade já estudadas há séculos por Freud, “gap’s” nas relações humanas que refletem uma sociedade cada vez mais egoísta, carente, insegura de si e dependente do outro.
Portanto, enquanto as crises deste século são a carência afetiva e a anulação de si por uma felicidade que “se busca no outro”, a palavra-vedete que define o ponto de equilíbrio é: autossegurança!
(Adriano Utsch Egg/todos os direitos reservados)
